UM PREFÁCIO

Acima, fotos feitas ao longo da pesquisa, no Recôncavo Baiano. Caso queira ver detalhes de cada foto, basta clicar sobre ela.

Eu sou a chuva que lança a areia do Saara
Sobre os automóveis de Roma
Eu sou a sereia que dança
A destemida Iara
Água e folha da Amazônia
Eu sou a sombra da voz da matriarca da Roma Negra
Você não me pega
Você nem chega a me ver
Meu som te cega, careta, quem é você?
Que não sentiu o suingue de Henri Salvador?
Que não seguiu o Olodum balançando o Pelô?
E que não riu com a risada de Andy Warhol?
Que não, que não e nem disse que não?

Eu sou um preto norte-americano forte
Com brinco de ouro na orelha
Eu sou a flor da primeira música
A mais velha
A mais nova espada e seu corte
Sou o cheiro dos livros desesperados
Sou Gitá Gogóia
Seu olho me olha mas nem me pode alcançar
Não tenho escolha, careta, vou descartar
Quem não rezou a novena de Dona Canô
Quem não seguiu o mendigo Joãosinho Beija-Flor
Quem não amou a elegância sutil de Bobô
Quem não é Recôncavo e nem pode ser reconvexo

A canção “Reconvexo”, de autoria de Caetano Veloso, define tudo o que é o Recôncavo Baiano: a novena de Dona Canô, a majestade de Joãosinho Trinta, da Beija-Flor, a elegância sutil do ex-jogador de futebol Bobô. 


O presente trabalho (um filme longa-metragem, um filme curta-metragem, um e-book, um site a respeito do Samba de Roda do Recôncavo Baiano) pode ser bem definido como o Reconvexo – o mundo acadêmico, “erudito”, conectado via internet – prestando homenagem ao Recôncavo, à sua majestade advinda da tradição, da oralidade, da cultura popular. 

Em janeiro de 2017, em férias pela Bahia, decidi sair do circuito Barra-Ondina, e seguir rumo ao interior daquele estado. Meu companheiro de viagem – “viagem”, aqui, em todos os sentidos possíveis – já havia anunciado que lá no interior da Bahia encontraríamos o interior do Brasil.
 

E assim foi.

Em um início de domingo, estávamos em Santo Amaro da Purificação. Fãs incondicionais da família Velloso, fomos ao endereço da casa de Dona Canô. À sua porta... Rodrigo Velloso. Sem nos conhecer, convidou-nos a entrar. Batemos um longo papo. Sobre o samba, sobre a vida. Rodrigo falou-nos sobre Dona Canô, sobre Santo Amaro, sobre os festejos da cidade. Ficamos amigos daquela figura doce que é Rodrigo. Prometemos voltar.
 

Em um fim de domingo, estávamos em Terra Nova. Vimos o Samba de Roda na Casa de Mestre Celino. O pulsar da cultura estava ali, em cada bater de palmas que acompanhava cada sambador e cada sambadeira. Sambamos, conversamos, nos encantamos. Prometemos voltar.
 

Jamais me esquecerei da frase que eu disse, ainda na volta de Terra Nova a Salvador:
 

- Não é justo, sairmos daqui assim. Sinto que bebi, bebi, bebi cultura, me alimentei de cultura, e não estou dando nada em troca. Isso é muito injusto.
 

Pois este trabalho é, de alguma forma, um jeito de eu agradecer por tudo aquilo que vivi, naquele domingo de 2017.

 

Prometi voltar, voltei.
 

Se não posso ser Recôncavo, que eu seja Reconvexo.
 

E que o Recôncavo, o Samba de Roda, Dona Dalva, Rodrigo Velloso, Mestre Celino, João do Boi, Fernando de São Braz... brilhem, em toda a sua grandeza.

Ontem, hoje e para sempre.
 

Fabiana

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