Tradição e Oralidade

As regras definidas a homens e mulheres, assim como todas as outras características do Samba de Roda – o uso dos instrumentos, as canções e suas letras, a dança, as vestimentas – são aprendidas de geração a geração, de pai para filho, de avô para neto, de tal forma que “tradição” e “memória” são palavras-chave, no Samba de Roda do Recôncavo Baiano.

De fato, o indivíduo constitui-se graças à memória. Sem ela, não há pertencimento. Sem ela, o indivíduo não é membro de sua comunidade. Assim como definiu o escritor malinês Amadou Hampâté Bâ, conhecido como o mestre da tradição oral africana:

 

É, pois, nas sociedades orais que não apenas a função da memória é mais desenvolvida, mas também a ligação entre o homem e a Palavra é mais forte. Lá onde não existe a escrita, o homem está ligado à palavra que profere. Está comprometido por ela. Ele é a palavra, e a palavra encerra um testemunho daquilo que ele é. A própria coesão da sociedade repousa no valor e no respeito pela palavra. 
[...]
A tradição oral é a grande escola da vida, e dela recupera e relaciona todos os aspectos. Pode parecer caótica àqueles que não lhe descortinam o segredo e desconcerta a mentalidade cartesiana acostumada a separar tudo em categorias bem definidas. Dentro da tradição oral, na verdade, o espiritual e o material não estão dissociados.
[...]
Fundada na iniciação e na experiência, a tradição oral conduz o homem à sua totalidade.

 

 

Essa centralidade da tradição oral e da memória colocam os sambadores e as sambadeiras mais velhas como figuras também centrais, no Samba de Roda, como afirma Alexnaldo dos Santos. As mulheres mais velhas são chamadas antes para sambar. Os homens mais velhos são reverenciados, como tocadores mais experientes. Alguns deles são até chamados de “mestres”. É o caso de Mestre Celino.


Mestres têm o dom na memória. Um “sambador de valor” não repete um samba ao longo de uma noite de samba: João do Boi afirma: "[depois de cantar um samba, na mesma noite], essa chula eu não grito mais!".

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