Prato-e-Faca

Prato-e-Faca, nas mãos de Dona Edith

Apenas mulheres tocam o prato-e-faca.

Não existem elementos históricos que determinem com exatidão a origem nem do uso desses utensílios como instrumento do Samba de Roda, nem da exclusividade de seu uso por mulheres. Mas existem algumas suspeitas.


Francisca Marques apresenta a primeira delas. Segundo a etnomusicóloga, esse uso pode ter relação com outras referências culturais do Recôncavo, como a própria comensalidade. Com a celebração da vida. Como ela afirmou, a relação com a comida é muito presente nas expressões culturais do Recôncavo – como já se viu nas festividades em homenagem a São Cosme e Damião (o Caruru de São Cosme) e a Nossa Senhora da Boa Morte.

A segunda possibilidade, que advém dos estudos da presente pesquisa, está na relação com o trabalho. Mais especificamente, na relação entre Casa-Grande e Senzala.

 

Cabia às mulheres negras trabalhar nas cozinhas das Casas-Grandes. A elas cabiam – cabem, ainda hoje – as tarefas domésticas necessárias ao “Sinhô” e à “Sinhá”, aos senhores do engenho, seus “donos”. Cuidar das crianças, cozinhar, lidar com os utensílios referentes a essa tarefa, mexer com panelas, preparar a mesa, lavar pratos e talheres, tudo isso fazia parte do dia a dia daquelas negras que, de dia, estavam na Casa-Grande e, de noite, voltavam à Senzala. Uma possível origem, assim, do uso do prato e da faca como instrumentos de percussão estaria aí: novamente na relação com o trabalho, e novamente como resultado da criatividade e da transformação de um elemento em outro, da escravidão do trabalho forçado à liberdade da arte do samba.

Uma terceira possibilidade de origem do prato-e-faca como instrumento é a Komba, uma celebração tradicional africana, após a morte de alguém próximo. Segundo o cineasta angolano Francisco Keth, há uma série de rituais que cercam a Komba, dentre eles, o uso de prato-e-faca para a produção de música, no ritual.

Uma personagem central, quando se fala do prato-e-faca com instrumento percussivo no Recôncavo Baiano, é Dona Edith do Prato.

©FabianaDeLazzari.  Site desenvolvido por Kaza Véia Produções Artísticas. By FPDL.