As matrizes:

Os negros, que foram trazidos, como escravos, a esta terra

É importante que se explicite que os negros não eram escravos: eles foram trazidos como escravos. Do mesmo modo, os brasileiros negros vivos hoje não são descendentes de escravos, e sim descendentes de seres humanos trazidos como escravos.


Essa aparentemente – apenas aparentemente – pequena diferença é a responsável pelo subtítulo desta parte do trabalho.


Abordaremos, aqui, a enorme influência das culturas africanas, no Samba de Roda. Influência tamanhamente grande, que o etnomusicólogo Xavier Vatin afirma categoricamente:


O Brasil é a África.

E o Samba de Roda é, também, a África. A África no Brasil. O negro africano escravizado no Brasil.


O Samba de Roda é um canto de labor, um canto de dor.


Mas um canto de dor de quem canta sorrindo. Afinal, como afirma o coordenador geral da ASSEBA, Alexnaldo dos Santos, “o Samba de Roda compensa” o trabalho excessivo e indigno, a tristeza cotidiana, a falta, o descaso.

Um primeiro elemento em que a influência das culturas africanas é patente são alguns dos instrumentos usados no Samba de Roda. Instrumentos percussivos, especialmente o agogô – que adquiriu função diferente da original, aqui no Brasil – têm suas raízes na África. O toque desses instrumentos, com a mão, também tem essa raiz.

 

Mesmo a viola machete, que tem origem portuguesa e que é tocada de maneira semelhante às técnicas da época da renascença europeia, tem organização rítmica africana. Em especial, os ritmos de origem bantu, da região Congo-Angola.

 

A relação estreita entre música e dança igualmente tem origem africana, como já abordamos anteriormente.


E o modo de dançar, igualmente, tem raízes claramente africanas.


A dança, com o movimento centrado na parte do corpo abaixo da cintura, com os pés sendo a força motriz do corpo, também tem relação com a africanidade, uma vez que vem da experiência corporal das danças no candomblé, como está explicitado por Xavier Vatin. O etnomusicólogo afirma que "as origens ancestrais do samba de roda encontram-se no coração dos terreiros de candomblé e do povo de santo do Recôncavo".

O próprio modo de se lidar com o corpo, em várias culturas africanas, é bastante diferente do modo de se lidar com o corpo na referência judaico-cristã, segundo anáise de Wilson Penteado. A sensualidade, patente no Samba de Roda, seria reflexo dessa maior liberdade.

 

De acordo com o etnólogo especializado em temas afro-brasileiros Edison Carneiro, a umbigada tem origem em danças angolanas.


No que tange à relação do Samba de Roda com Angola, não se pode deixar de falar do Semba. Trata-se de um gênero de música tradicional africana, especificamente da Angola.

 

Encontramos, para “Semba”, duas traduções possíveis.


A primeira, “a arte de rezar”, como nos afirmou o etnomusicólogo Xavier Vatin.


A segunda, interessantemente, é “umbigada”, segundo o maestro Kleber Mazziero.


A semelhança rítmica entre o Semba e o Samba é perceptível. Ademais, é interessante pontuar que essa semelhança abarca também ritmos do Caribe, e do sul dos Estados Unidos.

As formas de sociabilidade, explícitas nos códigos de conduta do Samba de Roda, também são heranças africanas. 


A começar pela indistinção entre sagrado e profano. Tal separação, comum nas culturas europeias, inexiste nas culturas africanas, segundo Xavier Vatin.

Os códigos entre homens e mulheres, igualmente, “têm seus pés” em terras africanas, como se observa nos rituais do candomblé, religião afro-brasileira. Nesses rituais, homens tocam os atabaques, enquanto as mulheres fazem as danças. Estas aproximam-se dos homens, reverenciando os músicos – reverenciando, na verdade, os instrumentos de percussão. Segundo Xavier Vatin e Francisca Marques, essa prática do Samba de Roda está diretamente relacionada ao candomblé. Em seus rituais, reverenciam-se os instrumentos de percussão, os atabaques. Afinal, é através da voz do atabaques que os orixás se manifestam.

Até mesmo a forma de cantar os sambas é semelhante aos cantos dos rituais de candomblé, em que se observam duas vozes, cantando em paralelo.


Por fim, como elemento cultural do samba herdado do continente africano, elencamos as formas de falar. Como já abordamos, os sambas são cantados em língua portuguesa. Porém, de acordo com o linguista Renato Mendonça, o modo de se pronunciarem várias palavras vem de línguas africanas.


Os exemplos elencados por Mendonça são o fato de não se pronunciarem os “Rs” no final de palavras como “Salvador”, característica essa comum a vários dialetos africanos. O uso do gerúndio sem a pronúncia do “D” (como em “Andano”) e a ligação de fonemas (como “Foi Simbora”) também adviriam de dialetos africanos.

 
 

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