O presente trabalho

Diante da necessidade de se continuar o caminho, rumo à valorização do Samba de Roda, o presente trabalho pode ser visto como parte do projeto de salvaguardar esse bem cultural. Como já dissemos, embasamo-nos no princípio

 

Para valorizar, conhecer. Para conhecer, divulgar. Divulgando, eternizar.
 

Assim, o trabalho, que inclui um e-book, um site, um filme longa-metragem e um filme curta-metragem a respeito do Samba de Roda do Recôncavo Baiano, estaria imbuído do projeto de valorização-conhecimento-eternização dessa (para fazermos uso do termo cunhado pela Unesco) obra-prima.


Entendemos, com Patricia Gouveia, que a interação proporcionada pela transmedia possa auxiliar o conhecimento. Citando Oguibe, Patricia Gouveia reafirma que “there is always a lot of light in the Heart of Darkness”.


Com essa noção a respeito de novas formas de aquisição de conhecimento, produzimos um material transmidiático, que permite a divulgação e o maior conhecimento a respeito do Samba de Roda.
 

A fim de proporcionarmos maior transmissão de informações, em tempos da Cultura da Convergência, nós nos valemos dos estudos de Henry Jenkins. Segundo o autor, Convergência define-se pelo “fluxo de conteúdos através de múltiplos suportes midiáticos”, pela “cooperação entre múltiplos mercados midiáticos”, pelo “comportamento migratório dos públicos dos meios de comunicação, que vão a quase qualquer parte em busca das experiências de entretenimento que desejam”.


Dessa maneira, entendemos que o Samba de Roda, que desde o século XVI até os dias de hoje é transmitido exclusivamente de forma oral, de geração a geração, pode ser beneficiado pelos “tempos de Convergência”. Valendo-nos da definição de Jenkins, entendemos que a “cooperação entre múltiplos mercados midiáticos” é uma maneira de fazer com que essa cultura, menos difundida do que deveria, receba novos contornos, novos contextos de transmissão. Afinal, como o mesmo autor afirmou, o próprio processo de criação de novas plataformas se dá por uma necessidade cultural, estando relacionada ao fluxo de imagens, ideias, histórias, sons e relacionamentos.
 

De modo coerente com essa visão de que existe uma necessidade cultural de criação de novas plataformas que permitam a transmissão de ideias, imagens, sons etc., também utilizamos o conceito de Transmídia, que permite que as pessoas aprofundem seus conhecimentos e experiência sobre a temática em questão.


Para nos auxiliar nesse processo de formação de material de transmídia, fizemos uso de escritos de Sodré, que constatou que a passagem do século XX para o século XXI viu uma importante mudança, no que diz respeito à comunicação: de uma comunicação centralizada, vertical e unidirecional, passou-se para outra interativa, multimidiática e com avanços técnicos. Igualmente, nós nos embasamos nos escritos de Lamardo e Silva, que defendem que a convergência das mídias tem o propósito de melhorar, ampliar e aprofundar a experiência do usuário, e não apenas de empregar múltiplos canais de mídia simultaneamente.
 

Por fim, nosso trabalho se valeu dos estudos da pesquisadora de transmídia Patrícia Gouveia, que afirma que

 

“É fundamental considerar a estética transmídia, inerente às experiências concretas no espaço digital das redes, um lugar ‘vivo’ que reconfigura e problematiza conceitos e tradições que não podem mais ser compreendidos fora de um contexto interdisciplinar e variado”.

 


Vale aqui descrever um tanto mais detidamente o conceito norteador do e-book e do site: ao longo do texto, encontram-se links nos quais, ao clicar, o leitor terá acesso por vezes a um arquivo de áudio, outras vezes a um trecho filmado, outras tantas a explicações mais detalhadas de um tema, e assim sucessivamente. Tais links não apenas ilustrarão o texto exposto, como também permitirão ao leitor integrar-se e, sobretudo, conhecer tanto o âmbito musical quanto o da manifestação cultural, mais ampla, do Samba de Roda.
 

A leitura, assim, transforma-se numa experiência imersiva do leitor no universo cultural do Recôncavo.


Utilizando a plataforma digital como suporte transmidiático, o e-book e o site permitirão a convergência de linguagens distintas, todas elas confluindo para o resgate e a perpetuação de um valioso material cultural transnacional, pois não é apenas brasileiro, mas também africano e, em parte, lusitano, uma vez que o processo de fluxo de escravos se deu ao longo do Brasil como colônia portuguesa.


Além da revisão bibliográfica, parte fundamental de nossos estudos foram as entrevistas realizadas, em grande parte, no Recôncavo Baiano, ao longo do mês de julho de 2018. Seguem, abaixo, os entrevistados, a quem agradecemos desde já pela presta e generosa colaboração.

 

Agnaldo Nascimento

Agnaldo Nascimento é um sambador, cantor do grupo Samba Chula de São Braz.

 

Alexnaldo dos Santos

É coordenador geral da ASSEBA (Associação dos Sambadores e Sambadeiras do Estado da Bahia) e articulador/gestor cultural da Casa do Samba Mestre Celino, na cidade de Terra Nova, no Recôncavo Baiano.

Mestre Celino

“Mestre” é um título dado a sambadores mais antigos e tradicionais. Mestre Celino começou no samba aos 8 anos de idade. Fundou o grupo “Filhos da terra”, em 2008. Atualmente, Mestre Celino é sambador e coordenador da Casa do Samba Mestre Celino, em Terra Nova.

 

Dona Dalva

Dona Dalva Damiana de Freitas é uma sambadeira. Essa senhora de 90 anos de idade é uma profunda conhecedora da tradição do Samba de Roda. É líder do Grupo de Samba de Roda Suerdieck e integrante da Irmandade da Boa Morte.

 

Diego Neri

É bacharel em Música (Instrumento Percussão), pela Universidade Federal da Bahia. Diego Neri é também percussionista e professor de percussão.

Fabiana Comerlato

É bacharela e licenciada em História, pela UFSC. É mestra e doutora em História, com concentração em Arqueologia, pela PUCRS. Tem pós-doutorado em Ciências Sociais, com concentração em Arqueologia, pela UFBA.

Fernando de São Braz

Nando, ou Fernando de São Braz, fundou o grupo Samba Chula de São Braz, no final dos anos 90s, com duas duplas de cantadores: João do Boi (também entrevistado), Massu, Alumínio (irmão de João do Boi) e José Mame.

Francisca Marques

É professora do Centro de Cultura, Linguagens e Tecnologias Aplicadas (CECULT/UFRB) em Santo Amaro da Purificação, Bahia, na área de Música e Cultura. É também pesquisadora na área de etnomusicologia especializada em patrimônio imaterial, educação comunitária e audiovisual. Fundou e coordena o Laboratório de Etnomusicologia, Antropologia e Audiovisual (LEAA/Recôncavo).

​Francisco Keth

É cineasta e estudioso da história do continente africano. Vive em Angola é é Secretário-geral da Associação Angolana de Profissionais de Cinema e Áudio Visual (APROCIMA).

João do Boi

João Saturno, o “João do Boi”, mora no vilarejo de São Braz, distrito da cidade de Santo Amaro da Purificação, uma comunidade de pescadores e marisqueiros na Bahia. João do Boi é um sambador tradicional e reverenciado, no Recôncavo Baiano.

Kleber Mazziero

É maestro, compositor, escritor, cineasta e diretor teatral. Academicamente, Kleber é graduado em composição e regência; é mestre e doutor em comunicação social; tem pós-doutorado em filosofia e estética.

Patrícia Gouveia

Patrícia Gouveia é artista multimédia e pesquisadora em Transmídia. É Professora Associada e Diretora da área de Arte Multimédia da Faculdade de Belas-Artes da Universidade de Lisboa.  Sua investigação foca-se nos meios lúdicos, ficção interativa e artes digitais como lugares de convergência entre o cinema, a música, os jogos, as artes e o design. Entre 2006 e 2014 editou o blogue Mouseland e, em 2010, publicou o livro Artes e Jogos Digitais, Estética e Design da Experiência Lúdica.

Pina

Crispina de Jesus, a "Pina", é sambadeira na cidade de Terra Nova, na Bahia.

Rodrigo Velloso

Rodrigo Velloso foi secretário da cultura de Santo Amaro da Purificação e é profundo conhecedor das tradições do Samba de Roda. Além disso – ou principalmente, segundo o próprio Rodrigo –, ele é “filho de Dona Canô”.

Wilson Penteado

É graduado em Ciências Sociais, com ênfase em Antropologia Social, pela UNICAMP. É mestre e doutor em Antropologia Social. Foi vencedor do Prêmio Silvio Romero (2006), no Concurso Nacional de Pesquisas sobre Cultura Popular, com sua dissertação de mestrado. É Professor Associado, na UFRB.

 

Xavier Vatin

É Professor Associado de Antropologia, na Universidade Federal do Recôncavo da Bahia (UFRB). É graduado em Musicologia, pela Université de Nice Sophia Antipolis (França). É mestre e doutor, em Antropologia Social e Etnologia, pela École des Hautes Études en Sciences Sociales. É também pesquisador associado da Université Lumière Lyon 2, também na França.

O e-book e o site tratam do passado, presente e futuro do Samba de Roda. Porém não seguem a ordem cronológica. Com vistas ao amanhã (a revitalização, a eternização do Samba de Roda), divulgamos o hoje (o modo como se apresenta o Samba de Roda do Recôncavo Baiano, àqueles que desconhecem essa arte), por meio do conhecimento do ontem (suas origens, sua história).


Além do e-book e do site, também faz parte do trabalho a produção de um filme longa-metragem e de um filme curta-metragem.
 

O filme longa-metragem, de título Ontem, Hoje... Para Sempre Samba de Roda, trata do Samba de Roda sob o mesmo prisma do e-book e do site: origem, atualidade e futuro do Samba de Roda.


O filme curta-metragem, de título O samba e a roda, narra a vida de Dona Dalva Damiana, desde sua infância até a atualidade, sob o ponto de vista e com a voz da própria Dona Dalva.

Bora sambar!

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Capítulo 1 - o Hoje