Joãozinho da Goméia

“[...] nenhuma macumba tão espetacular como essa da roça da Goméia, ora nagô, ora angola, candomblé de caboclo quando das festas de Pedra Preta, um dos patronos da casa. Nos ritos nagôs, os santos do pai de santo da Goméia são Oxóssi e Iemanjá; do pai de santo Joãozinho da Goméia ou da Pedra Preta, um maravilhoso bailarino, digno de palcos de grandes teatros. Esse caminho de São Caetano, que leva à estrada difícil da Goméia, é percorrido por quanto artista, quanto escritor e quanto sábio passa por essa cidade.”

 


Assim Jorge Amado definiu o terreiro de candomblé de Joãozinho da Goméia, em seu livro Bahia de Todos-os-Santos.


João Alves de Torres Filho nasceu em Inhambupe, Bahia, em 27 de março de 1914. Ainda menino, mudou-se para Salvador. Aos 16 anos, iniciou-se no candomblé.


Ficou conhecido por “Joãozinho da Goméia” após estabelecer seu terreiro na rua da Goméia, no bairro São Caetano, da cidade de Salvador. Os rituais naquele terreiro misturavam tradições de Angola, Ketu e dos Candomblés de Caboclo. 


Assim como apontou Jorge Amado, Joãozinho da Goméia era um “maravilhoso bailarino”, que demonstrava seus dotes nos rituais de candomblé. Filho de Oxóssi e Iansã, Joãozinho tinha, nas palavras do antropólogo, escritor e babalorixá Pai Rodney de Oxóssi, a inteligência do caçador e o raciocínio rápido como um raio.


Em 1946, mudou-se para o Rio de Janeiro. Estabeleceu seu terreiro no bairro Duque de Caxias. Joãozinho ficou famoso, o que fez com que celebridades passassem a ser presença constante em seu terreiro:


Políticos e artistas de todos os lugares entre eles Embaixadores da França, Inglaterra e Paraguai, Cauby Peixoto, Dorival Caymmi, Emilinha Borba, Francisco Alves, Getúlio Vargas, Henrique Teixeira Lott, Maria Antonieta Pons, Marlene, Ninon Sevilha, Paulo Gracindo, Solano Trindade, Tenório Cavalcanti, Djalma de Lalu e José Bispo dos Santos ou Pai Bobó, como era conhecido. [...] Há quem diga que em 1961 após a inauguração da Petrobras o presidente Juscelino Kubitschek pediu para desviar o caminho [dos adversários] indo ao encontro do “Rei do Candomblé”.​

Joãozinho da Goméia jamais escondeu sua condição de homossexual e, devido a isso, foi perseguido pelo povo de santo e por intelectuais. Também foi alvo de outras polêmicas. Uma delas disse respeito ao fato de Joãozinho ter permitido que pesquisadores participassem e fotografassem dos ritos secretos ocorridos em seu terreiro, como a iniciação de um novo filho de santo (ritual ainda hoje bastante resguardado, nas casas de candomblé).


Da Goméia causou ainda mais furor em 1956, quando se travestiu de “Arlete”, em um baile do Teatro João Caetano. Esse fato causou problemas com a Associação de Candomblé, que exigiu a sua imediata expulsão. Com as palavras, João da Goméia:


Eu não consigo me imaginar atualmente como apenas um elemento à parte do cenário afro-brasileiro, se o candomblé assumiu uma postura de espetáculo de luz e cores foi graças a minha roça da Goméia, não posso acreditar que digam que eu desmoralizo ou desmoralizei o candomblé apenas por gostar de enfeitar meus orixás, ou brincar no carnaval, afinal estou vivo e se cheguei até aqui foi graças a minha personalidade e autenticidade, mas pelo menos tenho uma recompensa perante todo este bafafá, ocupei o meu lugar no mundo e quem estiver incomodado que venha falar comigo, afinal sou ou não sou o Rei do Candomblé.
 

Porém, se sua postura causou polêmica com o povo de santo, aumentou ainda mais sua fama e disseminou a cultura do candomblé.

Mais: segundo Xavier Vatin, foi Joãozinho da Goméia que "levou a corporalidade baiana do candomblé e o samba para o Rio de Janeiro".

Joãozinho da Goméia alcançou fama, a ponto de ser capa da revista O Cruzeiro.

Joãozinho da Goméia morreu vítima de um tumor (ou coágulo – há notícias que dão conta das duas versões) no cérebro e de complicações cardíacas, aos 56 anos de idade, em São Paulo.

 

Seu funeral tornou-se inesquecível: ao baixar seu corpo à sepultura, os raios de Iansã cortaram o céu e uma tempestade torrencial e repentina fez o dia virar noite.

Abaixo-assinado para a construção do Centro Cultural Joãozinho da Goméia no local em que foi o terreiro da Goméia – Duque de Caxias-RJ:

 

https://www.abaixoassinado.org/abaixoassinados/7580