Instrumentos de Corda

“Era efetivamente outro gênero, como o leitor facilmente compreenderá. Ali postos os quatro, numa noite da seguinte semana, sentou-se Barbosa no centro da sala, afinou o machete e pôs em execução toda a sua perícia. A perícia era, na verdade, grande; o instrumento é que era pequeno. O que ele tocou não era Weber nem Mozart; era uma cantiga do tempo e da rua, obra de ocasião. Barbosa tocou-a, não dizer com alma, mas com nervos. Todo ele acompanhava a gradação e variações das notas; inclinava-se sobre o instrumento, retesava o corpo, pendia a cabeça ora a um lado, ora a outro, alçava a perna, sorria, derretia os olhos ou fechava-os nos lugares que lhe pareciam patéticos. Ouvi-lo tocar era o menos; vê-lo era o mais. Quem somente o ouvisse não poderia compreendê-lo.”


“O machete”, Machado de Assis

Até há poucas décadas, havia três tipos de viola, no Samba de Roda do Recôncavo Baiano: a viola paulista, a viola três quartos e a viola machete. A primeira é industrializada e as duas últimas são feitas manualmente. Hoje, o mais comum nas rodas de samba é usar-se a viola paulista, industrializada, como instrumento de corda. Também é comum o uso do cavaquinho, no lugar das violas.


É significativo o fato de o machete ter sido paulatinamente trocado por outros instrumentos (inclusive o cavaquinho, que originalmente não fazia parte do Samba de Roda). Sendo o machete o símbolo dessa expressão cultural, seu esquecimento representa o esquecimento do próprio Samba de Roda enquanto tradição local.

Ao se ouvir um sambador tocar a viola, especialmente a viola machete, é perceptível sua semelhança, especialmente no timbre e no ritmo, com a música sertaneja “raiz”, como se diz comumente. Essa similaridade tem relação com a própria cultura caipira em sua essência, apresentando relação com a existência e os valores do homem das zonas rurais. Apenas enquanto o músico que toca a música sertaneja, especialmente no sudeste e no centro-oeste é conhecido como violeiro, o músico que toca samba é o sambador.

Mestre Celino tocando o machete

Alexnaldo dos Santos explicando o uso do violão, como acompanhamento da viola

Os padrões de melodia e ritmo são denominados pelos sambadores de “toques” ou “tons”, e suas técnicas e estilos podem ser identificados, principalmente, como dois. O primeiro, o Toque ou Ponteiro, consiste em algumas convenções de movimentos com as mãos, geralmente executadas apenas com o polegar e o indicador. O segundo, o Pinicado, consiste em o polegar ferir a nota mais aguda e o indicador ferir a nota mais grave do instrumento.


Devido ao fato de a viola machete (ou simplesmente machete) ser o instrumento-símbolo do Samba de Roda, muitas comunidades, incentivadas pelo processo posterior ao título de Obra-Prima do Patrimônio Oral e Imaterial da Humanidade, têm buscado revitalizar esse instrumento.

Oficina para revitalização das tradições locais.

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