As transformações

As três matrizes – branca europeia, indígena, negra – não se fixaram, no Brasil, exatamente do modo como existiam originalmente. Houve uma ressignificação das práticas, no “novo mundo”. Houve inventividade.

Muitos dos instrumentos – usados e não usados no Samba de Roda – mudaram de função, no Brasil. A associação entre berimbau e caxixi (na capoeira), o agogô, a cuíca, a sanza (instrumento que não mais existe), a marimba (rara, hoje em dia), no Brasil, adquiriram novos usos, novas funções.

O candomblé é outro elemento tipicamente brasileiro, resultado de ressignificações de religiões africanas. O culto a vários orixás, por exemplo, é uma característica que não existe, na África-mãe.

Aliás, o sincretismo religioso também é uma característica tipicamente brasileira. Iemanjá equivale a Nossa Senhora das Candeias ou Nossa Senhora da Conceição, Ogum equivale a São Jorge ou Santo Antônio, Xangô equivale a São Jerônimo ou São João Batista, Iansã equivale a Santa Bárbara, Oxum equivale a Nossa Senhora Aparecida ou Nossa Senhora da Conceição, Nanã equivale a Santa Ana.


Tal equivalência pode ter-se dado devido à necessidade de negros e índios esconderem suas crenças principiais. Segundo o psicólogo, mestre em ciências da religião, sacerdote de candomblé Guaraci M. Santos, o sincretismo, no Brasil, foi e é um “dispositivo de resistência, de legitimação e sobrevivência destas culturas”. De fato, uma vez que o catolicismo era obrigatório – da aculturação à punição, tudo era feito para se converterem negros e indígenas à “verdadeira e única fé” –, uma saída possível, além de dar continuidade, de modo silencioso, às suas crenças originais, era associar seus deuses a santos católicos.

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O Samba e a Roda