As Festividades

Nos dias próximos a 15 de agosto, há a festa da Nossa Senhora da Boa Morte, relacionada ao evento religioso cristão da ascensão de Nossa Senhora, mãe de Jesus. Concomitantemente, relaciona-se, no Recôncavo Baiano (particularmente na cidade de Cachoeira), à cultura dos negros, trazidos ao Brasil como escravos.

 

Segundo Francisca Marques, a confraria religiosa da Boa Morte foi formada unicamente por mulheres negras endinheiradas que compraram suas próprias alforrias, assim como de outras mulheres. Formaram, em princípios do século XIX, o primeiro candomblé Ketu, atrás da Igreja da Barroquinha, em Salvador e fizeram a promessa de que, se todos os escravos fossem libertos, elas cultuariam Maria, Nossa Senhora, na vida e na morte.

A festa da Nossa Senhora da Boa Morte traz claro sincretismo religioso. De um lado, o catolicismo e o culto a Maria, mãe de Jesus, que ascendeu aos céus sem ter morrido. De outro, as Iabás Iemanjá, Oxum, Nanã, as orixás femininas do candomblé. Nossa Senhora tem a face da Morte (Nanã) e a face da Glória (Oxum e Iemanjá). Morte, vida, renascimento, todos são eventos celebrados nessa bela festa, em homenagem à Nossa Senhora da Boa Morte.

A respeito de uma possível incoerência entre as expressões religiosas, Francisca Marques conta uma história:

Em nossas pesquisas, também encontramos um relato semelhante. Desta vez, a personagem é a lendária Edith do Prato, em reportagem feita pelo jornal Folha de S.Paulo de 17 de dezembro de 2002, por conta do lançamento de seu disco Dona Edith do Prato – Vozes da Purificação e de sua participação no festival baiano Mercado Cultural.

 

As paredes da casa desfilam imagens de Caetano e Bethânia, em fotos ou desenhos. Só perdem na devoção para o pequeno quarto em que Dona Edith guarda imagens de entidades do candomblé, num altar principal. A surpresa, quando se cruza a soleira de mármore da sala envolta em meia-luz, só aumenta quando se percebe atrás da porta uma razoável confraria de santos católicos. Filha de Oxum Maré, Dona Edith não se furta ao sincretismo explícito. Questionada se é católica, diz sem titubear: "Graças a Deus".

 

Na festa da Irmandade de Nossa Senhora da Boa Morte, o samba não se limita à parte profana da celebração; trata-se, antes, de um elemento fundamental desta, um símbolo de celebração. O Samba de Roda acontece no terceiro dia da festa, após a Procissão da Assunção de Nossa Senhora. Depois de ocorrida a procissão, as mulheres, Irmãs da Boa Morte, vestem-se com o traje típico da ocasião e sambam. De acordo com uma hierarquia a ser respeitada, as Irmãs da Boa Morte devem sambar antes dos espectadores. Também é respeitada a determinação de que, caso alguma irmã ou alguma personalidade considerada importante por elas tenha falecido, não se sambe na sede da Irmandade; o samba, então, ocorrerá apenas nas ruas da cidade.

Em 27 de setembro, ocorrem as festividades em homenagem aos santos Cosme e Damião. As festas são chamadas de “Caruru (em uma referência ao prato típico, servido gratuitamente à comunidade na ocasião) de São Cosme”.
 

Descrição de um Caruru de São Cosme

Fonte: Patrimônio cultural de Camaçari & Simões Filho 

Trata-se de uma mistura de festa e devoção, de alegria e religião – ou de alegria na religião: é, como está definido nos estudos sobre o Patrimônio cultural de Camaçari & Simões Filho“rica em dança, cantos, culinária, arte, infância e ludicidade cultural” e tem como objetivo reverenciar os santos, especialmente em algumas situações: quando se tem ou se é irmão gêmeo; quando se pegou, por sorte, um quiabo inteiro no Caruru do ano anterior; ou mesmo se gosta de ter a casa com muitas crianças.

ORAÇÃO A SÃO COSME E SÃO DAMIÃO
Intérprete: Maria Bethânia

 

Cosme e Damião, Doum...
Crispim, Crispiniano, Caboclinho da mata...
Festas e mais festas eu dei, 
A promessa que fiz já paguei!

Cosme e Damião, Doum...
Essa data feliz eu me lembro!
Cosme e Damião, Doum...
27 de setembro!

O samba é parte essencial da festa. Nesse caso, é denominado “Samba de Caruru”.

Segundo descrição do sambador Agnaldo Nascimento, “geralmente, no momento da chula após a reza, existe aquela chula a capela, só voz”:

E interessantemente não se homenageiam, necessariamente, apenas os santos Cosme e Damião. Pode-se também homenagear Santo Antônio, São Roque, Santa Bárbara.

Cosme e Damião - Filhos da Terra
00:00 / 00:00
Oração a Santo Antônio - Samba das Raparigas
00:00 / 00:00

Sagrado e profano se unem, se reúnem, assim como afirma o percussionista Diego Neri. Na cultura africana, aliás, esses conceitos estão tão relacionados entre si, que não são distinguíveis. Segundo o etnomusicólogo Xavier Vatin, tal distinção foi feita pelos europeus que dominaram a "Novo Mundo".

Tradições indígenas também estão entre as matrizes culturais do Samba Chula. Nos “Sambas de Caboclo” – ou Samba de Cabila, ou Samba de Cabula, que, segundo Diego Neri, é o "pai do samba–, que ocorrem nos terreiros de candomblé, realizam-se cultos aos caboclos.

Os Sambas de Caboclo são, como se percebe, a união completa de culturas. Nas palavras de Xavier Vatin, trata-se da “releitura do índio através do olhar dos africanos da Bahia”.

Vatin também relaciona a figura do caboclo com a indústria charuteira do Recôncavo, assim como com a "africanidade" do Recôncavo.

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