A Dinâmica

Já falamos, com Carlos Sandroni, que o Samba de Roda é “uma expressão musical, coreográfica, poética e festiva das mais importantes da cultura brasileira”. Igualmente verdadeira é a definição dada no Dossiê produzido para a candidatura do Samba de Roda ao título de Obra-Prima do Patrimônio Oral e Imaterial da Humanidade:


O Samba de Roda é dança, é música, é poesia, é inclusive teatro.
 

Teatro, sim. Porque há papéis bastante definidos a serem desempenhados. Há códigos bastante distintos e delineados para homens e mulheres, como aponta Francisca Marques


Dona Dalva define (e quem nos conta isso novamente é a etnomusicóloga Francisca Marques), Samba de Roda acontece quando tem homem e mulher.

Aos homens, cabe tocar os instrumentos e cantar. À mulher, cabe acompanhar a música com palmas (quando há o prato-e-faca como instrumento, tocá-lo, no lugar das palmas) e dançar.

Não é a qualquer momento que a mulher pode – aliás, esse é mais um dos códigos: apenas uma mulher por vez pode – entrar na roda, para sambar. Ela deve esperar o momento em que “a viola chora”, ou seja, quando o sambador parou de cantar e apenas se ouvem os instrumentos tocarem.

Assim que entra na roda para dançar o seu miudinho, a mulher deve “correr a roda”; deve, no sentido anti-horário (começando da viola, o instrumento de maior hierarquia, no evento), sambar diante de cada músico, reverenciando sambador a sambador.

Tendo acabado sua dança, a sambadeira deve escolher outra mulher para correr a roda e deve chamá-la por meio de uma “umbigada”. Apenas após ser chamada a próxima mulher entra na roda para sambar.

Já os homens devem, no evento, tocar e cantar. Há algumas explicações para que o homem não deva sambar e sim tocar os instrumentos. Uma teoria embasada na antropologia, segundo Xavier Vatin, é a relação com o candomblé: assim como ocorre nas rodas de Samba, nos rituais de candomblé reverenciam-se os atabaques.

 

As explicações vindas dos sambadores são de ordem prática: Alexnaldo dos Santos afirma que homem “é duro”, não sabe sambar tão bem quanto a mulher. E que, esta sim, “mostra o gingado do corpo bonito”.

João do Boi explica que “o atabaque precisa de muita manobra pra bater”.

João do Boi também explica, assim como Nando e Alexnaldo, que o homem não dança, porque “amassa o barro”.

O sambador Agnaldo Nascimento explicita que essa expressão, “amassar o barro”, tem relação com o mundo do trabalho, da construção de casas: nessa atividade, amassava-se o barro com os pés, enquanto se cantavam Sambas de Roda. Por isso ao homem não caberia dançar; a ele cabe o trabalho, a lida.

Mas também é interessante notar que, unindo esta explicação à ideia de que “homem é duro, não sabe dançar”, o sambador movimenta seus pés tal qual o trabalhador que amassa o barro.

Há, até, sambas que mostram que apenas às mulheres cabe sambar.

Essa divisão, apesar de, em um primeiro momento parecer diminuir a figura da mulher, não deve ser vista desse modo. De acordo com a etnomusicóloga Francisca Marques, a cultura do samba é bastante matriarcal.

E, de fato, a mulher parece ser uma aglutinadora cultural. O samba, vindo especialmente da cultura negra, mostra a centralidade da mulher. É ela que arregimenta as festas, a dança e a religião. Figuras como Dona Dalva e Dona Cadu hoje, Dona Canô ontem e Tia Ciata ainda antes são prova do quanto a mulher é fundamental à cultura em geral, e ao samba em particular.

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